Monday, May 21, 2007
alice
- Há leões ou tigres por aqui? - perguntou a medo.
- É apenas o rei a ressonar - exclamou Tweedledee.
- Anda vê-lo! - gritaram os dois irmãos que, dando as mãos a Alice, a encaminharam para o local onde o Rei estava a dormir.
- Não é uma visão encantadora? - perguntou Tweedledum. Para dizer a verdade, Alice não poderia concordar que o fosse. O Rei tinha na cabeça um barrete de dormir com uma borla e estava deitado no chão, enroscado sobre uma espécie de monte de lixo. Ressonava ruidosamente «como se estivessem a arrancar-lhe a cabeça», como Tweedledum comentou.
- Receio que ele vá apanhar uma constipação, assim deitado na erva húmida. - disse Alice, que era uma menina muito ponderada.
- Ele está a sonhar neste momento - disse Tweedledee - , e sabes com quem?
- Ninguém pode adivinhar uma coisa dessas - respondeu Alice.
- Ora, está a sonhar contigo! exclamou Tweedledee, batendo as palmas com um ar triunfante. - E se ele deixasse de sonhar contigo, onde pensas que estarias?
- Onde estou agora, evidentemente - respondeu Alice.
- Nada disso! - retorquiu Tweedledee com desprezo. - Não estarias em lado nenhum. És uma espécie de objecto no seu sonho! Se o rei acordasse - acrescentou Tweedledum -, desaparecerias, puf, como uma vela!
- Isso não é verdade! - exclamou Alice, indignada. - Além disso, se eu sou uma espécie de objecto no seu sonho, o que são vocês, gostava eu de saber?
- A mesma coisa! - respondeu Tweedledum.
- A mesma coisa, a mesma coisa! - gritou Tweedledee.
Gritou tão alto que Alice não pôde deixar de dizer:
- Chiu! Se fazes assim tanto barulho, irás acordá-lo.
- Bem, não serve de nada falares em acordá-lo, uma vez que não passas de um objecto no seu sonho. Sabes muito bem que não és real - afirmou Tweedledum.
- Sou real! - disse Alice, começando a chorar.
- E não será por chorares que te tornarás mais real - acrescentou Tweedledee. - Não há razão para chorares.
- Se eu não fosse real não conseguiria chorar - disse Alice, rindo, por entre as lágrimas, do ridículo de tudo aquilo.
- Espero que não estejas convencida de que as tuas lágrimas são reais - interpôs Tweedledum num tom de enorme desprezo.'
um cheirinho de Lewis Carrol
Monday, April 16, 2007
um domingo qualquer
colaboração multimedia/cinema yeah
Saturday, April 14, 2007
diario de um psiquiatra demente
Acordo. Um dia igual a todos os outros. Ela ainda cá está, consigo sentir o cadavérico braço pendendo sobre mim. Ergo-me em direcção à vida. Mas no entanto, apresso-me para a morte, para a rotina. Assim não terei que a enfrentar. Ela repugna-me de tal forma que as minhas visceras se auto-digeririam, se tal fosse possível. Torna-se num nojo tão intenso do qual nem 3 milhões de banhos me poderiam alguma vez limpar. Tenho de me deixar destas coisas, penso, tenho que parar e estabilizar. Levanto-me.
Odeio rotinas, mas no entanto sou dependente dessas mesmas. Dirijo-me ao café de todos os dias. Peço o bolo de todos os dias, bebo o café de todos os dias. Constantemente perdendo-me em divagações, dores, ódios, amores... Em qualquer coisa minimamente atingivel. Novamente me perdia nestes devaneios mentais que tanto jurava a pés juntos não ter. Um dia, vi uma rapariga esconder-se atrás de uma tesoura ou de uma lamina qualquer, ao que pensei “como é que é possivel chegar-se a este ponto de auto-destruição e mutilação, como é que é possivel alguém no mundo pensar assim”. Um dia, chegou o meu dia, não o esperava ver, nunca. Não era eu. Este corpo não era o meu, não era minha esta vida, esse outro eu, sentia-se mal na multidão, e escondia-se atrás de uma bruma de cabelo, costumes e vicios, não era outro senão ele mesmo. Por esta época, tornava-se confuso exprimir tudo. Levanto-me da mesa, pago e vou-me embora. Observo-me no espelho de um elevador, cada vez me sinto menos eu. Estou novamente nas ruas de ninguém, vejo-me isolado da multidão, cada um na sua egoista ilusão de felicidade. O pensamento de posse de corpo assalta-me novamente no meio destes tais devaneios que me perseguem constantemente dia e noite.
Porque é que eu ainda perco tempo com isto? Uma questão deveras recorrente, da qual fugia. . Isto incomoda-me. Sinto-me impaciente. Hoje está um dia estranho, mas bonito, enfim.. um dia igual a todos os outros. Pego finalmente nas infindas cópias do sermão diurno. Sento-me. À minha frente, vejo passar uma, duas, dez, quinze, vinte pessoas diferentes. Tudo numa questão de segundos, não percebo o que me dizem. Deixo-os falar, aceno com a cabeça e ocasionalmente murmuro um "sim" ou um grunhido que os faça sentir ouvidos. Isto irrita-me. Alguém chama a minha atenção. Era ela, novamente. Fitava-me. Não havia nada por detrás daqueles olhos. Estava perdida na selva urbana. Não sabia para onde ir ou quem ser. Tudo o que de alguma forma a confortava, neste momento, escapava-lhe pelos dedos que nem areia, são ridiculas as minhas mãos... Pequenas, com os dedos cada vez mais finos, tremendo por vezes. Ela não tinha vontade de comer, ou fazer o que quer que fosse. Eu achava as convenções ridiculas, sempre as achei, começava-me a tornar cada vez mais confuso. Tudo o que tinha era respostas vagas para dar, novamente, tornava-se confuso exprimir tudo. Talvez porque fosse tão simples, que a explicação era horrivelmente dificil de exprimir. Não sei, eram apenas suposições minhas. Volto a prestar-lhe alguma atenção. Nem uma unica lágrima lhe escorre pelo rosto inerte, morto. Apenas todas as convenções que sempre evitou e repugnou. No fundo, tudo isso é ela mesma e mais nada que isso; no fundo, não há nada... Nem dor, solidão, amor ou qualquer coisa dessas que sempre considerei inexplicaveis por serem fruto de uma experiencia individual. De repente, esqueci tudo o que tinha aprendido. Observando aquele cadaver vivo, tive noção de que estava só, e não, não era só mais um dia mau.
Novamente dou por mim a calcorrear as ruas de todos os dias. Como já é regra, sigo os caminhos delineados no passeio, salto entre circulos ou pavoneio-me nunca calcando as pedras escuras. Ela não me sai da cabeça. Entro em casa, olho-me ao espelho. É ela que lá está.
Thursday, April 12, 2007
kaaaaawaii!!!
Thursday, March 01, 2007
Friday, February 16, 2007
imaculadas bebedeiras
faz com que o vinho nao se acabe nos tuneis
e que a aguardente seja cada vez mais forte
juro, jurarei, beberei ate a morte.
quando eu morrer nao quero choros nem gritos
ao pe de mim quero 5, 5 litros!
Thursday, February 08, 2007
*vicios*
da pizza à francesinha,
assamos eu e a madalena
horas e horinhas.
Com a chuva aos cantaros
Em casa estamos...
Só há uma coisa a fazer:
ver o prison break.
Friday, January 26, 2007
hate love hate
Tuesday, January 09, 2007
hail
where the sun used to shine and the drops had fall like tea leaves. hail, hail to the times. hail to the last days. hail to now days. hail hail hail.
Friday, December 29, 2006
apelo
agradeço a coperação da comunidade. :)
Thursday, December 28, 2006
vais ser
vais arrastar neste chao tudo o que nao foste, tudo o que nao tiveste, tudo o que deixaste.. e depois vais acordar... Vais acordar, e vais ver que nada valeu a pena... que talvez tudo valha a pena... vais verificar que o futuro que pintaste nunca se realizará, que vais ficar neste mundo, vais ser só mais um espectro, e depois vais pensar. Vais olhar para o céu e nao vai passar de um manto negro sem nada que ilumine o caminho, sem ninguém... E depois, ainda constatarás que por menos que tenhas é tudo o que tens, e isso tens que aproveitar... e vais sofrer... sofrer por ver que tiveste tudo tao perto no nada... e deitaste a perder porque aparentava ser insuficiente, e no fim... não há nada, apenas sonhos desfeitos, vasos partidos e vidas perdidas... e a conclusão final será a mesma, e essa é a relatividade de tudo e sua instabilidade... o arrependimento vai reinar... e no final, não será o nada que estará, será apenas o que não é teu, e o que perdeste... e vais ver que se calhar vale a pena o caminho dificil...
Monday, December 25, 2006
o vizinho
J vivia num prédio como todos os outros, com mau isolamento e recheado de senhoras cujo maior divertimento se prendia à observação furtiva do seu bairro. Todos os dias se levantava, tomava o seu duche de 7 minutos, vestia o fato de todos os dias, bebia café, comia as suas duas torradas com doce de morango que comprava em tal sitio, olhava-se ao espelho e saía de casa. J era agente imobiliário. Dependia de uma rotina viciosa da qual o seu maior amor era o seu telefone, das 8 da manhã às 11 da noite, fosse a que hora fosse, fosse que dia fosse J não o largava. Afinal de contas, era tudo o que tinha. Por vezes, J passava dias inteiros em casa, tendo o seu velho roupão como segunda pele, apenas atendendo telefonemas, ludibriando acerca de casas e terrenos. J tinha um vizinho, o M. M era um empresário extremamente bem sucedido, um agente imobiliário tal como J, e vivia no apartamento por cima do seu. Todos os dias J vivia na obcessão de que M passava horas a fio colado ao chão de sua casa, de modo a tentar ouvir todas as estratégias e floreados utilizados por J na venda de propriedades. Portanto, J evitava assim falar concretamente com os seus clientes acerca dos negócios, recorrendo constantemente a metáforas e analogias que se tornavam muitas das vezes absurdas, provocando uma reacção de desconfiança do estado mental deste. Cada vez mais, os “tiques” nervosos eram mais notórios, desde um nervosinho miudo que o atacava constantemente e o fazia agitar infindamente a perna, roer canetas ou piscar o olho esquerdo descontroladamente. Por vezes, ambos os homens se cruzavam nas escadas, esboçando com sofrimento um sorriso ou soltando um grunhido em que algo se parecia com um “bom dia” ou “boa tarde”. Por vezes, de madrugada, toda a casa de M ria de forma estridente, ecoando a voz de diferentes mulheres. J passava noites em branco. No dia seguinte, recomeçava a rotina como se nada se tivesse passado. Regularmente cruzava-se com essas mulheres ao descerem as escadas, observando-as meticulosamente, conseguindo sentir a imundisse do seu olhar. J voltava ao emprego, copulando constantemente com o seu telefone, reflexo da sua vida. Cada vez mais embrenhado neste frenezim pós-moderno, J regurgitava-se cada noite na sua casa com tudo o que precisava para uma vida saudavel, emergindo por momentos da cripta consumista que fomentava. Imediatamente esquecia estas suas reflexões pseudo-filosoficas que tinha durante o seu banho nocturno, para seguidamente voltar à concepção de novas estratégias de venda. Mas a sua maior preocupação, além do seu próprio sucesso, era o segredo do seu negócio pelo qual pugnava de unhas e dentes, não fosse M descobri-lo. J não conseguia perceber o sucesso de M. Por vezes ouvia-o a grunhir ao telefone com algum cliente caprichoso, conseguindo decifrar da conversa valores monetários. Simplesmente J não entendia o que fazia de errado. Uma noite, após um dia de árduo trabalho, J chegou a casa e ouviu um intenso movimento na casa do seu vizinho M. Estava farto. Tinha que descobrir como este atingia o seu sucesso, para tal, J juntou-se às suas excelentissimas vizinhas que deveriam viver com frigorifico e televisão ao lado da janela pois sempre as via a observarem o movimento em geral. Aí descobriu a rotina de M, que em muito não diferia da sua. Isto intrigava-o. J não aguentava a pressão de ameaça de permanente escuta. Como seria possível que M fosse mais bem sucedido que ele mesmo, quando a sua rotina era identica? Mais uma vez J deu por si, sentado na sua sala a ouvir a actividade do apartamento de M. Um dia não aguentou. E possuído por um sentimento qualquer de insanidade e cuscuvilhisse, que havia herdado das suas vizinhas, deu por si a empilhar uma cadeira por cima de uma mesa, para assim conseguir com o auxilio de um copo escutar as conversas de M. Esboçou um sorriso. J havia finalmente desvendado o segredo do sucesso de M.
